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José Bonifácio, o ecologista

José Bonifácio de Andrada e Silva, mais conhecido como “Patriarca da Independência”, foi um pioneiro naturalista brasileiro e é considerado por estudiosos como o primeiro ecologista do Brasil. Nos 36 anos em que viveu na Europa, dedicou-se à Mineralogia e à Silvicultura na França e na Alemanha, após deixar a Academia de Ciência de Lisboa. Defendeu a reversão das terras não cultivadas à Coroa e pediu o reflorestamento obrigatório e preservação de um sexto das matas originais de toda propriedade.

Uma de suas maiores influências foi o naturalista italiano Domingos Vandelli, célebre à época, que havia sido contratado para lecionar história natural e química na Universidade de Coimbra. Foi com o professor Vandelli que Bonifácio adquiriu a visão crítica da destruição da natureza.

Na França, fez curso de química com Antoine François de Fourcroy, químico e político, responsável pela criação do Museu de História Natural. Na Alemanha, conheceu Humboldt, reconhecido como primeiro ambientalista, e teve aulas com Kant. Naquela época, não se falava do esgotamento das riquezas naturais.

Bonifácio, por Benedito Calixto, do acervo do Museu Paulista da USP
Bonifácio, por Benedio Calixto, do acervo do Museu Paulista da USP

Segundo José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor de Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (Zahar), “para Bonifácio, o desenvolvimento não poderia basear seu crescimento na destruição anticientífica das florestas, pois essas ações ameaçariam o futuro’. Em 1828, José Bonifácio dizia: “Nossas preciosas matas desaparecem vítimas do fogo e do machado, da ignorância e do egoísmo. Sem vegetação, nosso belo Brasil ficará reduzido aos desertos áridos da Líbia. Virá então o dia em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos crimes.”

A ecologia e o projeto de nação

Pádua defendeu a tese de doutorado A Decomposição do Berço Esplêndido, que investiga as raízes da ecologia no Brasil. Para ele, “José Bonifácio foi o primeiro político a integrar a ecologia em um projeto nacional, um ecologista muito à frente de seu tempo”.

O professor José Murilo de Carvalho, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, citado em matéria da Superinteressante, declarou: “Ele inovou ao passar do naturismo para o ecologismo, superando a admiração passiva da natureza para incorporá-la racionalmente a um projeto de nação.”

Um ano depois de voltar ao Brasil, em 1820, fez uma viagem com um de seus irmãos, Martim Francisco, pelo sertão paulista e encontrou a mata reduzida a carvão. E lamentou “o ‘miserável estado em que se acham os rios Tietê e Tamanduateí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas que formam lagos que inundam essa bela planície.“

“Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?”
(1821)

A historiadora Berenice Cavalcante (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), em sua obra José Bonifácio: razão e sensibilidade (FGV), afirmou que Bonifácio, diante do que encontrou, lamentou o imenso potencial perdido pelo atraso e ‘desleixo’ dos brasileiros no cultivo da terra. Irritou-se com a destruição despropositada da natureza e previu que, “após esgotarem os recursos, as populações migrariam constantemente, dificultando ainda mais a chegada da civilização.”

Memória sobre a Pesca de Baleias e Extração de seu Azeite foi um dos célebres trabalhos de José Bonifácio. Redigido em 1790, na Academia de Ciência de Lisboa, nele o autor se mostrava indignado com as ‘irracionalidades’ que aconteciam. Num trecho do trabalho ele registra “as desordens que vi e observei em algumas armações de baleias no Brasil”,promovidas por “feitores estúpidos e inteiramente ignorantes na arte de pescar baleias”.

Sobre a desertificação, dizia o Patriarca: “Todos os que conhecem por estudo a grande influência dos bosques e arvoredos da Economia geral da Natureza, sabem que os países que perderam suas matas, estão quase de todo estéreis, e sem gente. Assim sucedeu à Síria, Fenícia, Palestina, Chipre, e outras terras, e vai sucedendo ao nosso Portugal.

Por Maria Lucia Martins, jornalista, com base em fontes diversas

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