Ação de salvaguarda: a obra
Quando a Casa José Bonifácio foi adquirida pelos atuais proprietários, observou-se aexistência de patologias biológicas e mecânicas, tais como o ataque de xilófagos causadores de deterioramento da madeira e infiltrações recorrentes causadas por telhas quebradas e rachadas, etc. Com isso, houve a necessidade de intervenções emergenciais que tiveram início em novembro de 2015.
Segue um modesto resumo do Projeto de Restauração e Adequação do imóvel, com a finalidade de definir escopo, estabelecer critérios, parâmetros, apresentar os memoriais descritivos, as normas de execução e especificar materiais e serviços das descrições técnicas das obras que foram realizadas, sob a coordenação e supervisão dos arquitetos Gustavo Coelho Cotrim e Juliana Pereira de Carvalho.
O projeto integral faz parte do processo que se encontra arquivado no IPHAN.
1 – FUNDAÇÕES
Compostas por pedra de mão sobrepostas e argamassadas entre si, as fundações existentes na edificação, tipo baldrame, foram mantidas, pois não foram identificadas deficiências estruturais nos trechos prospectados; entretanto durante as escavações complementares na obra, com toda a fundação exposta, foi realizado nova vistoria a fim de determinar a necessidade da execução de reforços pontuais.
Quanto aos trechos em que a técnica construtiva original foi mantida, mas o material existente encontrava-se degradado, como por exemplo no salão principal, propôs-se a substituição dos barrotes degradados por barrotes novos com dimensões e bitolas idênticos aos existentes, e apoiados nestes a execução de novo piso em madeira, mantendo as características do existente.
Para os revestimentos existentes sobre o baldrame, foi feita a remoção cuidadosa de toda argamassa, em seguida a limpeza de toda a estrutura. O baldrame foi lavado com água a baixa pressão, hipoclorito e escova de nylon e piaçava até a completa remoção do limo. Em seguida foi feita a remoção mecânica dos restos e o preenchimento do vão com pedra de mão e/ou tijolos maciços. Após o procedimento foi feito a aspersão em pelo menos duas demãos de água de cal garantindo a consolidação das pedras e da argamassa de assentamento.
Para o preenchimento de trincas com pouca espessura usou-se argamassa à base de
cimento pozolânico (CPIV 32), areia fina peneirada e seca.
2 – ESTRUTURA
As paredes que compõem a estrutura autoportante em alvenaria de tijolos cerâmicos maciços da casa foram mantidas, tendo em vista que foi constatado inicialmente que estavam em bom estado e com a estabilidade preservada, sem apresentar lesões. Durante a execução dos serviços, as lesões constatadas (perdas, trincas, lacunas, fissuras e recalques) foram reforçadas, e foram adotadas as devidas ações de recuperação.
3 – RESTAURAÇÃO DO BARROTEAMENTO
a) Barroteamento de Piso
Parte dos barrotes na área coberta estavam com sua volumetria comprometida e avançado estado de degradação, com perda de seção, esfacelamento da madeira, cabeceiras comprometidas, lacunas feitas por cupins e umidade generalizada. Estas peças foram encontradas no salão central e nas salas adjacentes.
Por outro lado, parte dos barrotes nas demais salas, mantinha sua volumetria preservada; embora apresentasse manchas de umidade e caminhos de cupins, não apresentavam fraturas ou perdas significativas de seção, mesmo nas cabeceiras, tendo sido tratadas e reaproveitadas. O ataque de xilófagos, umidade ascendente do solo, foram fatores determinantes para que as peças ficassem fraturadas e fragilizadas com cavernas de cupins, lacunas e esfarelamento da madeira.
Na área que o telhado cobria o edifício, foi feita a remoção cuidadosa dos pisos de madeira existentes. Com os barrotes à vista, foi feita uma inspeção a fim de verificar o possível reaproveitamento. Foi constatado a reutilização de algumas peças, e estas foram limpas com escovas de piaçava e, antes da imunização, foram reidratadas com óleo de linhaça aplicado com trincha.
Após, foram feitas as seleções das peças, qualificando as que ainda tinham condições de serem reaproveitadas no local ou descartadas. Estas últimas foram processadas para que as partes ainda íntegras pudessem ser reutilizadas como complemento de outras salas, nas quais conseguissem vencer os vãos, como complemento de outras partes faltantes de barrotes com mesmas dimensões e características semelhantes ou até mesmo para “enxertos”. As peças selecionadas que se encontravam em condições, mas que tinham sofrido ataques de xilófagos e se deteriorado, foram falquejadas, limpas, reidratadas com o uso de compressas de algodão cru em todas as faces de cada peça, com aplicação de óleo de linhaça traçado com solução imunizante.
As peças sem reaproveitamento foram substituídas por peças novas de madeira maçaranduba, com densidade, dureza e dimensionamento similares às peças originais. A metodologia original da técnica construtiva foi preservada. Todas as peças, novas e originais, foram passadas pelo processo de imunização.
b) Barroteamento de Forro
Os barrotes de sustentação dos forros foram submetidos ao processo de seleção e tratamento de imunização similar aos implantados nos barrotes de piso, sendo que, no caso de substituição e reposição, as novas peças foram do mesmo tipo de madeira e bitola similares às originais, respeitando- se as mesmas configurações de encaixes e paginação das peças remanescentes. Ressalte-se que todas as peças, novas e originais, passaram pelo processo de imunização.
4 – COBERTURA
O telhado da Casa José Bonifácio se encontrava em avançado estado de degradação, sem conservação, portanto as intervenções no madeiramento e arremates foram abrangentes.
Não houve necessidade de substituição da viga de cumeeira, porém foi necessário substituir aproximadamente 70% da estrutura de madeira (espigão, terças e componentes das tesouras), e trocar todos os caibros e ripas por novos, de madeira de lei.
a) Telhas Cerâmicas Existentes
Após a análise do telhamento existente, constatou-se grande número de telhas do tipo francesa quebradas e/ou rachadas, havendo a necessidade de troca de aproximadamente 1.600 unidades. Houve o cuidado para o máximo reaproveitamento, a fim de manter o registro histórico do material. Assim sendo, as telhas que estavam em bom estado de conservação foram removidas de forma cuidadosa, passaram por manutenção para reaproveitamento.
O processo iniciou-se pela análise cuidadosa de todas as telhas para avaliação das unidades que estavam quebradas e/ou rachadas, e depois, quando necessário, posterior substituição por peças que obedeciam a mesma tipologia das telhas originais.
As telhas aprovadas foram submersas em solução de água, detergente neutro a 20%, acrescido de 20% de hipoclorito durante 48 horas e passaram por escovação com as mesmas escovas e enxague em água corrente. Secaram ao sol por 5 dias e em seguida aplicou-se banho de imersão em solução aquosa, tipo hidrofugante, obedecendo rigorosamente a recomendação do fabricante quanto ao modo de aplicação e intervalo entre demãos. Após a secagem total das telhas, estas foram acondicionadas em caixas de madeira em local seguro para a montagem final.
b) Telhas Cerâmicas Novas
Para fins de segurança, manutenção, garantia e durabilidade da obra a substituição das telhas por novas, foram feitas por outras de mesmo padrão, com dimensões e coloração similares as existentes. As telhas francesas utilizadas se caracterizam por ser
desempenadas, com assentamento perfeito sobre o ripamento e sobreposição correta. Sua superfície, exige um ripamento bem nivelado. As telhas tiveram sua colocação iniciada do beiral para cima e da esquerda para a direita.
c) Beiral
Todos os cuidados foram tomados para a máxima preservação dos beirais, porém, devido ao avançado estado de degradação, houve a necessidade de substituição de todo madeiramento, além disso, as novas peças foram imunizadas.
d) Calhas e Rincões
As calhas metálicas em chapa galvanizada existentes na cobertura, foram removidas e substituídas por novas. Foram executados em chapa metálica dobrada com espessura de 5mm.
Os rincões foram executados também em chapa metálica dobrada com espessura de 5mm, com pelo menos 50cm de largura sendo área livre para escoamento d’água com 20cm e os outros 30cm divididos sob as telhas das duas águas.
5 – PAREDES
a) Alvenaria em Tijolo Cerâmico Maciço
Foi usada, como recomposição de trecho, alvenaria em tijolo cerâmico maciço 5x10x20cm 1/2 vez (espessura 10cm), assentado com argamassa traço 1:2:8 (cimento, cal e areia), mantendo a linha do sistema estrutural construtivo existente.
b) Alvenaria em Tijolo Cerâmico Furado
Foi executado novo trecho em alvenaria de tijolos cerâmicos de 8 furos para fechamento de vão de passagem e na recomposição de trecho faltante do muro dos fundos do terreno, frente à rua Comendador Lage.
Os tijolos furados se caracterizam por possuir massa homogênea, serem isentos de fragmentos calcários ou qualquer outro corpo estranho; serem compactos, prensados por processo industrial, duros, bem cozidos, com arestas definidas; terem faces planas e moldagem perfeita. O transporte e armazenagem foram feitos de modo que não ocorressem trincas, quebras ou outros danos.
6– ACABAMENTO DE PAREDES
a) Argamassa para Recomposição de Alvenaria Tijolos Cerâmicos
Foi usada nas recomposições de alvenaria, onde a mesma foi revestida de nova argamassa composta por chapisco e emboço sarrafeado. Os novos emboços foram nivelados e sarrafeados com réguas de madeira.
b) Remoção de Fungos, Liquens e Crosta negra em Argamassa
Foi realizado o processo de limpeza das partes da edificação que se encontravam com essas patologias, com uso de água corrente abundante, com baixa pressão.
No caso em que os trechos apresentaram desprendimentos ou pulverulência fo interrompida a lavagem; posteriormente realizou-se teste de percussão em toda a fachada para identificação de trechos com desprendimento, som cavo, pulverulência, trincas e fissuras, eflorescência.
Após a percussão, foram promovidos concomitantemente os serviços de: higienização pontual; aplicação de emplastros; remoção/demolição de áreas com desprendimento e/ou pulverulentas; remoção de vegetação inoportuna; abertura de fissuras.
7– ACABAMENTO DE TETOS
a) Forro Interno de Lambri de Madeira a Restaurar
Os forros estavam em estado avançado de degradação, incluindo o roda teto. Houve perdas em determinados pontos do forro. Após avaliação, verificou-se que as peças poderiam ser reaproveitadas, contemplando todos os ambientes com o lambri existente.
O segundo passo foi a inicialização da decapagem das peças com os devidos cuidados para não danificar as arestas dos frisos. Logo após, complementou-se com enxertos as partes fragmentadas, para que desta forma se otimizasse o rendimento das peças. Em seguida fez- se a calafetação das perfurações e cavidades derivadas das emendas existentes. As complementações foram executadas com as mesmas medidas e configurações existentes. Ressalte-se que as madeiras foram imunizadas.
b) Forro Externo de Lambri de Madeira - Beiral
O forro dos beirais se encontrava em estado de extrema degradação e por isso, houve a necessidade de substituição total do mes
8 – PINTURA
a) Preparo de Superfícies
Antes de começar os serviços de pintura em alvenarias, foi iniciada a preparação da superfície, tendo sido observados os seguintes preceitos: nos casos de desprendimento de pintura, retirou-se a mesma com espátula e lixa, deixando a superfície lisa, limpa e desimpedida; a porosidade das superfícies foi corrigida. Manchas de gordura ou graxa foram eliminada. Durante os trabalhos, foram tomadas precauções para evitar o levantamento de pó, até que as tintas secassem totalmente;
b) Pintura de Componentes Metálicos
Os componentes metálicos, assim como o gradil frontal e os portões, foram pintados em duas demãos de tinta esmalte sintético acetinado, sobre duas demãos de tinta protetiva, tipo zarcão.
9 – ACABAMENTO DE PISO
O piso da varanda de acesso principal, em ardósia, foi substituído por se encontrar em péssimo estado de conservação, e com isso, foi utilizado novo piso em Porcelanato 56x56.
Estes revestimentos apresentam as seguintes características: bem cozidos, massa homogênea, perfeitamente planos, coloração uniforme, dimensões indicadas, sendo materiais de primeira qualidade, sem rachaduras, depressões, crateras, bolhas, furos, pintas, manchas, defeitos na decoração, cantos e lados lascados, incrustações de corpos estranhos, riscados ou ranhurados.
a) Piso de Tábua Corrida do imóvel
O processo para a reabilitação do piso encontrado iniciou-se na obra, com a verificação detalhada peça a peça. O sistema seletivo foi bem apurado quanto ao estado de conservação das peças que vêm a compor o piso de cada ambiente. Constou de seleção, marcação, dimensionamento, quantificação e adequação das técnicas do processo de restauração
O piso de tábua corrida continha trechos com poucas degradações assim como trechos extremamente degradados, em estado praticamente irrecuperável.
O primeiro passo consistiu na remoção criteriosa de todas as peças remanescentes. Após a remoção foi feita a avaliação de cada peça. As peças que se encontravam em condições, mas que tinham sofrido ataques de xilófagos e se deteriorado, foram falquejadas, limpas, reidratadas com o uso de compressas de algodão cru, com aplicação de óleo de linhaça traçado com solução imunizante.
b) Piso em Tábua Corrida Novo
Foram executados aproximadamente 125m² de assoalho em tábua corrida novo, com madeira de mesmas dimensões do tabuado existente. Para o novo tabuado executado, foram utilizadas madeira de lei (ipê) e acabamento das pranchas do tabuado.
10– SOLEIRAS
a) Soleira em Madeira Restauradas
As soleiras em madeira passaram por processo de seleção quanto ao seu estado de conservação. Após o processo, retirou-se cuidadosamente as peças, descartou-se as que apresentavam deteriorações mais avançadas e separou-se as passíveis de aproveitamento. Essas peças foram restauradas juntamente aos pisos em tábua corrida, e relocadas nos ambientes onde foram aplicados os pisos. As peças que se encontravam em condições, mas que tinham sofrido ataques de xilófagos e se deteriorado, foram falquejadas, limpas e reidratadas raticamente irrecuperável.
b) Soleira em Madeira Nova
As peças sem reaproveitamento foram substituídas por peças novas de madeira ipê, com densidade, dureza e dimensionamento similares às peças originais. A metodologia original da técnica construtiva foi preservada. Todas as peças, novas e originais, foram passadas pelo processo de imunização.
11– ESQUADRIAS
Esquadrias de Madeira a Restaurar As esquadrias e conjuntos existentes como janelas, portas, cercaduras e bandeiras passaram por processo de restauração e reaproveitamento. Entende-se por conjunto as folhas móveis, as bandeiras fixas e a guarnição que inclui caixonete e aduela. Todas as esquadrias restauradas e reaproveitadas foram removidas cuidadosamente e armazenadas. As esquadrias e conjuntos existentes como janelas, portas, cercaduras e bandeiras passaram por processo de restauração e reaproveitamento. Entende-se por conjunto as folhas móveis, as bandeiras fixas e a guarnição que inclui caixonete e aduela. Todas as esquadrias restauradas e reaproveitadas foram removidas cuidadosamente e armazenadas de forma a não empenar.
As ferragens de ferro, que se encontravam em péssimo estado, foram substituídas por novas, em latão nas mesmas dimensões, garantindo uma melhor durabilidade e desempenho no abre/fecha.
12– SERRALHERIA
a) Gradil
O gradil encontrado no muro frontal apresentava avançado estado de degradação, com barras, lanças e bases oxidados, apresentando lacunas. Com isso, seu funcionamento se encontrava comprometido e houve a necessidade de substituição total do mesmo.
Foi colocado novo gradil, em módulos formados por barras de ferro redondas verticais encimadas por pontas de lança, montadas com duas barras chatas horizontais posicionadas na parte inferior e outra superior, que conferem rigidez ao conjunto. Por fim os módulos foram fixados em pilaretes que são de alvenaria revestidos com argamassa que nascem na mureta existente, em toda a divisa do terreno com a rua.
a) Portões
Os três portões de acesso ao terreno, dois frente à Praia José Bonifácio e um frente à Rua Comendador Lage necessitavam restauro, pois apresentavam grande quantidade de ferrugem e consequentes corrosões, que comprometiam seu funcionamento.
Para o restauro dos portões, promoveu-se uma limpeza mecânica com o uso de lixas e escovas de aço giratórias. Em seguida complementou-se a limpeza com o uso de decapante químico Maxi Rubber a fim de remover a tinta incrustada.
Para as partes faltantes, foi feita à substituição por peças de mesmo tamanho e padrão, executadas em ferro fundido, tendo como modelo as originais existentes. Como acabamento, foi aplicado zarcão em duas demãos e finalizado com pintura em esmalte sintético acetinado em duas demãos, na cor verde colonial.
13 - DEMAIS OBRAS E SERVIÇOS EXECUTADOS
As obras compreenderam a substituição de todas as instalações elétricas existentes no local. A ligação elétrica do relógio com a edificação que se encontrava exposta, solta no terreno, de maneira inadequada, foi removida. A instalação que antes se encontrava sem nenhuma proteção acima dos forros também foi substituída e inserida em eletrodutos. Além disso, foram instalados novos interruptores e tomadas no edifício, já que a quantidade anterior não era condizente com o uso proposto. Foi feita nova instalação elétrica para atender à iluminação externa.
Os dispositivos e acessórios foram inseridos conforme as necessidades da obra. Para a instalação de esgoto sanitário adotou-se o sistema tradicional de tubulação primária e secundária com escoamento por gravidade, conforme NBR8160. Os efluentes foram encaminhados através da rede existente na servidão diretamente a rede pública da concessionária local
Foi feita a execução de sistema hidráulico dos sanitários, como complementação ao sistema já existente de armazenamento e distribuição de água potável fria.
Finalmente, as louças e metais foram colocados após a conclusão de todos os serviços de pavimentação e revestimentos. A colocação foi feita de forma cuidadosa, visto que as louças são materiais frágeis, facilmente danificáveis, durante o seu manejo.